Gravuras do século XIX que retratam africanos recém-chegados sendo vendidos no mercado do Valongo mostram seus corpos muito magros, seminus e destituídos de quaisquer bens pessoais (figura 13). No entanto, quando em sua terra natal, os africanos conservavam consigo vários objetos de uso diário, devocionais e estéticos, tais como cachimbos, amuletos, braceletes de cobre e fiadas de contas de diferentes materiais colocadas ao redor do pescoço, quadril, punho e tornozelo (figuras 14 e 15).

Figura 13: “O Mercado de Escravos”, pintura de Henry Chamberlain, 1822. Domínio público.

Figura 14: “Rainha de Walo”, pintura de David Boilat, 1853. Domínio público.

 

Figura 15: “Mulher da África Ocidental”, pintura de David Boilat, 1853. Domínio público.

 

A partir do comércio com os europeus no século XVI, centenas de milhares de contas de vidro entraram na África. Esses objetos eram muito apreciados e atuavam como adorno, como símbolos de status social, político e religioso, e até mesmo como moeda. As representações sobre o cotidiano na África e sobre os africanos e afrodescendentes que viviam no Rio de Janeiro no século XIX, já integrados à sua nova realidade, mostram em detalhe o uso das contas de vidro (figura 16). Em sua maioria, eram peças grandes e decoradas, com maior valor simbólico e monetário. As contas encontradas durante a escavação do Cais do Valongo realizada em 2011, sob a coordenação da profa. Tania Lima, confirmam este padrão.

 

Figura 16: “Negras escravas de diferentes nações”, Jean B. Debret, 1834-1841. Domínio Público.

Assim, mais uma vez a pesquisa arqueológica confirmou as informações contidas em documentos primários, já que foram encontradas 223 contas no pequeno espaço escavado entre 2017 e 2018. Os achados, no entanto, chamaram a atenção dos arqueólogos por dois motivos: as contas foram os únicos objetos encontrados junto aos remanescentes dos africanos; e o padrão era bem diferente do esperado, com peças muito simples, ou seja, sem decoração e majoritariamente pequenas (entre 2 e 4 mm) (figura 17).

Figura 17: Contas de vidro encontradas no Cemitério dos Pretos Novos. Em sentido horário: branca, verde, preta, vermelha, azul e incolor. Crédito Gustavo Chá Chá.