Desde os primórdios da fundação da cidade do Rio de Janeiro, os escravizados eram inumados “no antigo e pequeno campo santo existente atrás do Hospital da Santa Casa junto ao Morro do Castelo. Onde eram enterrados: os indigentes, aqueles que morriam no hospital, os justiçados, os indígenas escravizados e africanos e seus descendentes”. A Misericórdia fornecia um esquife com seu pano, mandava buscar o cadáver e o sepultava, mediante ao pagamento de 400 réis, pelo senhor do escravizado. A Misericórdia tinha ainda a obrigação, mediante acordo estabelecido com a Coroa de enterrar os escravizados dos senhores pobres, que não podiam pagar aquela quantia.

Figura 1:  Imagem 1- Funeral de um negro. Fonte: Henry Chamberlain. Disponível: Aqui Fonte: Aqui. Acesso: 03/08/23

 

Mas devido ao incremento do tráfico, a alta taxa de mortalidade, as condições de vida da escravaria, além das grandes epidemias que ceifavam a centenas as pobres “vítimas” do tráfico, ainda no século XVII houve a necessidade de se criar os cemitérios para pretos e mulatos, sobretudo escravizados, como o Cemitério do Rocio, em 1613, também conhecido como cemitério dos Mulatos. Neste mesmo período, os carmelitas passam a permitir que os cativos fossem enterrados em frente à testada do seu convento e igreja. Também os franciscanos passaram a enterrar escravizados em um terreno junto ao morro de Santo Antonio, mas como o local era muito pequeno, em 1709, obtiveram concessão do Conselho Ultramarino para ampliar o terreno em 18 braças de chão, onde mais tarde foi construído o Hospital da Penitência. Este espaço hoje é o largo da Carioca.

Ainda neste contexto, os vereadores constatavam que faltavam na cidade lugares competentes para o sepultamento dos cadáveres “dos mesmos escravos, que morriam” e que essa falta causava “consequências prejudiciaes, com escândalo público”. Na tentativa de sanar esse problema, em 27 de maio de 1722, o rei mandava o governador informar o pedido do Cabido “para se instituir no Rio de Janeiro, um cemitério exclusivamente para escravos”. Assim, foi instituído no antigo sítio do Valverde, largo de Santa Rita, o Cemitério dos Pretos Novos que, mais tarde – na gestão do Marquês de Lavradio (1769-1779) –, no ano de 1774, seria transferido para o Valongo, funcionado dentro do Mercado de Escravizados até sua extinção em 1831, com a primeira lei antitráfico. No local hoje funciona o Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos.