No início do período de atividade do CPN o Valongo era uma região pouco povoada, formada por chácaras e algumas casas de pescadores, e distante do núcleo urbano. A chegada da família Real e da Corte portuguesa no Rio de Janeiro em 1808, no entanto, iria mudar essa situação uma vez que resultou em um importante e repentino crescimento populacional. Os cativos africanos eram cada vez mais necessários para os serviços domésticos e para o abastecimento e construção de uma cidade em expansão (figura 06).

Figura 6: “Calceteiros”, aquarela sobre papel, Jean B. Debret – Rio de Janeiro, 1824. Domínio público
Assim, o Valongo acompanhou a expansão populacional e territorial da cidade, bem como o aumento da importação de africanos. E, quanto mais cativos eram desembarcados, maior era o número de mortes devido às doenças e à violência que sofriam durante a captura na África e as viagens nos navios negreiros (figura 7). O pequeno cemitério foi se tornando insuficiente ao longo do tempo para receber um número cada vez maior de corpos. As práticas funerárias, portanto, também tiveram que acompanhar o crescimento da população na região bem como dos mortos.

Figura 7: Gravura do interior de um navio negreiro, Richard Drake, 1860. Domínio público
A mudança no tratamento dado aos corpos dos africanos ficou bem clara através da pesquisa arqueológica. Nos níveis mais profundos do cemitério, que correspondem aos momentos iniciais de ocupação do cemitério, os arqueólogos encontraram os remanescentes humanos em posição primária, ou seja, eles foram encontrados da mesma forma em que foram depositados no solo (figura 8). Nenhuma ação posterior foi realizada uma vez que o espaço ainda era suficiente para os corpos.

Figura 8: Primeiro conjunto de remanescentes humanos encontrados em posição primária no Cemitério dos Pretos Novos. Crédito Andrea Lessa
Outra descoberta dos arqueólogos foi que não eram abertas covas fundas, os corpos eram jogados praticamente à flor da terra e sem qualquer cuidado. Como resultado, os corpos ficavam amontoados uns sobre os outros, em diferentes posições e direções (figura 9). Depois era apenas jogado um pouco de terra sobre eles. Logo as chuvas e os animais carniceiros desenterravam partes dos corpos, o que gerava cenas repugnantes e um fortíssimo odor de decomposição .

Figura 9: Representação de um sepultamento múltiplo primário a partir dos remanescentes humanos encontrados no Cemitério dos Pretos Novos – Desenho livre de Reinaldo Tavares.
