A saúde bucal dos cativos depositados no CPN também foi estudada pelos arqueólogos. Através da análise de marcadores de estresse biológico (figura 18) e de patologias nos dentes (figura 19) foi possível entender alguns aspectos do cotidiano na África.

Fig. 18: Marcador de estresse biológico (depressões lineares no esmalte dentário) presente em dente encontrado no Cemitério dos Pretos Novos. Crédito Hugo Beust.

Figura 19: Marcadores patológicos presentes em dentes encontrados no Cemitério dos Pretos Novos. À esquerda, pequena cárie; à direita, cálculo dentário. Crédito Andrei Santos e Hugo Beust.
Um dos aspectos que mais chamou a atenção foi a ocorrência de vários episódios negativos para o equilíbrio do organismo, especialmente entre as mulheres gestantes e as crianças até 5 anos. Este cenário desfavorável para a saúde teria relação com o esforço físico excessivo vivenciado pelas mulheres, que se encarregavam das pesadas atividades ligadas à subsistência dos grupos, como a coleta, o cultivo, o transporte de água por longas distâncias e a preparação dos alimentos, além de cuidarem das crianças (figuras 20 e 21). Devido às constantes guerras entre as tribos africanas centro-ocidentais, os homens dedicavam grande parte do seu tempo às atividades de defesa da aldeia e do território.

Figura 20: Mulher africana do início do século XX carregando água em vasilhame de cerâmica. Domínio público.

Figura 21: Desenho de mulher centro-africana pilando mandioca e carregando criança às costas. Fonte: Carvalho, 1890.
A alimentação desses africanos era baseada principalmente em vegetais ricos em carboidratos e açucares, tais como milho, mandioca, e feijão. Também faziam uso regular de mel. Esse tipo de alimento favorece a proliferação de determinadas bactérias na boca, o que aumenta bastante a ocorrência de cáries e de tártaro (cálculos dentários). No entanto, mais uma vez a pesquisa no CPN resultou em um padrão inesperado, uma vez que os dentes apresentaram baixa ocorrência dessas patologias. A explicação para a boa saúde bucal foi explicada a partir de uma prática cultural antiga entre os africanos. Diariamente, às vezes durante horas, eles mascavam palitos de espécies vegetais com propriedades terapêuticas específicas, com o objetivo de limpar os dentes e a língua (figura 22). Este hábito evitava o surgimento de doenças e de seus incômodos, como a extração dos dentes, muito comuns quando sentiam dores.

Figura 22: Africano mascando palito vegetal da espécie Salvadora pérsica para higiene da boca. Domínio público.
Essas são apenas algumas das informações disponíveis sobre os africanos que não chegaram a viver como cativos no Rio de Janeiro, mas que ainda hoje contam as suas histórias através das pesquisas realizadas no Cemitério dos Pretos Novos (figura 23). Para saber mais consulte a bibliografia abaixo:

