O ano de 1996 marcaria para sempre a história da diáspora africana para o Brasil a partir da inesperada descoberta do Cemitério dos Pretos Novos, localizado no atual bairro da Saúde (figura 1).

Figura 1: Planta do Rio de Janeiro de 1858 com o Cemitério dos Pretos Novos Novos assinalado na região do Valongo.

 

Durante a obra de reforma em uma residência localizada na antiga região do Valongo, os operários descobriram grande quantidade de ossos e dentes humanos, o que iria revelar aspectos da escravidão no Rio de Janeiro que permaneceram esquecidos por mais de 150 anos. Trata-se de um espaço funerário único no mundo, exclusivo para os corpos dos cativos africanos que chegavam à cidade e morriam antes de serem vendidos no mercado de escravos do Valongo.

Pesquisas históricas nos registros de óbito da época revelaram que milhares de africanos tiveram o CPN como destino final entre 1761 e 1830. Somente nos últimos seis anos de atividade, 6.119 corpos foram aí depositados. Em sua grande maioria eram homens adultos jovens, necessários para os pesados trabalhos em minas de ouro e pedras preciosas, em lavouras, e mesmo em atividades urbanas.

Desde a sua descoberta, muitas pesquisas foram realizadas sobre os remanescentes humanos do CPN. No entanto, esses ossos e dentes coletados do solo pelos operários da obra, sem qualquer orientação científica, não seriam suficientes para se conhecer melhor o tratamento dado aos mortos (figura 2).  A primeira escavação arqueológica ocorreu em 2012, quando foram escavados 10 cm de profundidade em duas áreas, uma de 4m2 e outra de 1m2 (figura 3). O objetivo era delimitar o espaço do cemitério, que foi estimado em menos de 500m2. Conhecer a localização e a dimensão dos sítios arqueológicos é o primeiro passo para assegurar a sua preservação e divulgação para o grande público (figura 4).

Figura 2: Dra. Lilia Machado fazendo o salvamento arqueológico dos

remanescentes humanos coletados por operários durante a sua descoberta.

Crédito: Instituto de Arqueologia Brasileira

 

Entre 2017 e 2018 uma área de 2m2 foi finalmente escavada em profundidade, chegando a mais de 1m, o que possibilitou verificar a utilização do cemitério ao longo do tempo, bem como a forma como os corpos foram depositados (figura 5).

Figura 3: Arqueólogo Reinaldo Tavares escavando a superfície do Cemitério dos Pretos Novos em 2017.

Crédito: Reinaldo Tavares.

 

 

Os resultados desta pesquisa comprovaram e ampliaram os relatos contidos nos poucos documentos do século XIX sobre o CPN, escritos por viajantes estrangeiros, por vizinhos e por autoridades de saúde e da polícia. Estes textos retratam um cenário terrível, de total indignidade e desrespeito pelas pessoas aí depositadas.